Crónica de uma semana no Actua

Posted: Março 30, 2012 in Uncategorized

Depois de dias e meses e anos de petições, protestos simbólicos, indignação no sofá e nos cafés, um grupo de pessoas decidiu levar até Foz-Tua a sua vontade de defender o vale do Tua e travar a barragem da EDP.

Foram oito dias que trouxeram ao Douro vinhateiro mais de cem pessoas, vindas de todo o país e de paragens mais distantes, em espanha ou na alemanha. Também trouxeram dezenas de polícias, fardados ou à paisana, mobilizados para espiar e vigiar permanentemente o acampamento, reprimir as acções de protesto e proteger bem protegido o lucro de António Mexia – em mais um exemplo notável de como bem gastar dinheiro público em Trás-os-Montes.

Foram oito dias de fóruns e debates ao pôr-do-sol, de refeições vegetarianas comunitárias, de passeios pela centenária linha do Tua, de exibições de filmes alimentadas a energia solar, de encontro entre muitas pessoas muito diferentes, que insistem em manter em comum o desejo de um mundo melhor. Foram oito dias bastante caóticos, que tornaram evidente o quanto temos de aprender e experimentar para nos organizarmos melhor – e o quanto temos de repetir estas iniciativas.

Foram dias em que acumulámos revolta perante o avançar do dinheiro e o recuar da natureza, perante a mercantilização destruidora do que de mais belo existe no planeta. Em que vimos e sentimos de perto o absurdo do plano nacional de barragens, esse sonho molhado do capitalismo português em que se erguem dez inúteis monstros de betão, se destroem dez rios e assim se acrescentam uns algarismos às contas milionárias da Mota-Engil, da EDP (e da sua nova madrasta China Three Gorges) e outras instituições igualmente respeitáveis.

Foram oito dias em que experimentámos a reacção azeda de alguns habitantes: o “deviam ter vindo antes!”, de quem não nos lembramos de ter visto nas várias acções pelo Tua dos últimos anos; o “isto nunca vai parar!”, de quem se habituou a viver esquecido, conformado e obediente aos poderosos; o “deixem as pessoas trabalhar!”, de quem foi catequizado no culto cego do trabalho, que os impede de compreender que tantos jovens utilizem o seu tempo e o seu dinheiro para vir até à sua aldeia lutar por uma causa. “Não deviam estar a trabalhar? Há alguém que vos paga para aqui estar!”

E foram oito dias em que experimentámos o carinho de tantas outras pessoas: vizinhos que nos traziam a sua força e admiração, a sua comida e o seu vinho, a sua música e poesia. Que abriram a porta das suas casas e dos seus corações – para nos deixar entrar e para deixar sair a revolta.

Foram oito dias passados junto a centenas de trabalhadores, explorados noite e dia e arriscando a vida – para destruir o seu próprio vale.  Dias em que a música de Sérgio Godinho adaptada virou ode a todos eles: “Vi-te a trabalhar o dia inteiro / construindo barragens para os outros / carregar pedras, desperdiçar / muita força por pouco dinheiro / Que força é essa, amigo / que te põe de bem com outros e de mal contigo?”

Foram oito dias de contraste entre dois mundos:

De um lado o ruido das maquinas, as explosões. Do outro as gargalhadas e as danças, os ritmos da rsistencia, as jam sessions entre ukuleles e violinos.

De um lado, engenheiros e gestores e accionistas que vêm de longe, trazendo o mais profundo desprezo por quem ali vive. Do outro, pessoas vindas de toda a parte, trazendo a genuína vontade de conhecer e partilhar experiências.

De um lado a lógica medieval dos senhores ricos a explorar os trabalhadores pobres. Do outro uma experiência de recusa da hierarquia e de auto-gestão, com distribuição de tarefas e decisões horizontais.

De um lado a eficiência, o lucro e a morte, do outro a experimentação, a partilha e a vida.

Foram oito dias de luta. Juntámo-nos a milhares pelo mundo fora no Dia de Internacional de Acção pelos Rios, contra a destruição dos rios em nome do dinheiro. Piquenicámos junto ao Tua, num lugar público tornado interdito pelas explosões da EDP. Atravessando o rio, invadimos os estaleiros para mostrar a mensagem: “Nem mais uma barragem!”. Fomos saudar o senhor presidente, responsável pelo início do fim da Linha do Tua e por encher o país de cinzento: “Cavaco, irmão, bota mais betão!”. Plantámos um sobreiro junto a uma das entradas da obra, em homenagem aos milhares de sobreiros abatidos em Portugal, e por isso merecemos cerco policial e cães de guarda. Fomos fazer-nos ouvir à porta do estaleiro Quisemos bloquear a entrada do estaleiro, mas travaram-nos os pontapés e empurrões da GNR. Invadimos a obra para pintar “Actua!” numa das paredes betonadas.

Foram oito dias em que se desafiámos o conformismo, a aceitação, a lógica do facto consumado, reinventando formas de luta: A obra já vai avançada, mas ainda assim vamos até Foz-Tua. A estrada a caminho do rio diz “proibida a passagem”, mas ainda assim passamos e dizemos que proibida é a barragem. Os camiões estão em marcha, mas ainda assim tentamos bloquear o portão. Os habitantes estão resignados, mas depois de longas conversas admitem a mágoa e que não tinha de ser assim.

Se a voracidade destruidora do capitalismo não tem limites, a nossa passividade tem. Foram oito dias em Foz-Tua, onde deixámos uma semente. A resistência é fértil, e muitos mais dias destes virão.

Francisco, participante no Actua

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