Rescaldo

Posted: Março 24, 2012 in Uncategorized

Reunimos aqui reflexões e opiniões sobre o acampamento. Envia também a tua para acampamentoactua@gmail.com

GNR e EDP – eis o Plano Nacional de Barragens

em http://spectrum.weblog.com.pt/arquivo/2012/03/gnr_e_edp_eis_o.html

Nada faltou, evidentemente, naquele recanto esquecido do Alto Douro. Lá estiveram os ritmos e a resistência, vinho tinto fora de prazo e muita comida vegetariana, serões animados e campismo à chuva. O cenário idílico entrecortado por explosões audíveis a quilómetros e uma obra que já provocou mortos e que nunca pára, faça chuva ou faça sol, seja dia ou seja noite.
A população a tudo assiste, indignados uns, resignados outros, mais ou menos curiosa relativamente aos campistas, mais ou menos desconfiada relativamente a um fluxo que duplicou a população de Foz Tua durante uma semana. Alguns habitantes contaram as suas histórias, sobre o rio onde já não se pode pescar, sobre o trabalho desumano que ali se leva a cabo, sobre um vale que nunca mais será seu.
Também não faltaram os deputados, claro está. Catarina Martins (Bloco de Esquerda) percorreu de carro vários quilómetros para estar cerca de 40 minutos na manifestação, falar com os jornalistas no local e abalar rapidamente, a tempo, quem sabe, de nova aparição no telejornal.
Nem sequer Cavaco faltou à chamada, fugindo corajosamente pelas ruas de Alijó de meia-dúzia (juro) de manifestantes que lhe queriam oferecer os frutos de um laranjal que a EDP e a Mota-Engil se encarregarão de submergir. Diz quem sabe que se tratam das melhores laranjas do mundo, mas Cavaco, que sabe uma coisa ou outra acerca dos problemas da agricultura (daquela que não conseguiu arruinar completamente, note-se), não quis saber nada disso.
Nada faltou a não ser gente suficiente para parar aquela barragem. Mas quem está vivo nunca diga nunca, porque ainda é cedo para falar no pretérito perfeito. O que mexia não mexerá para sempre.
O que certamente não faltou foram os militares da GNR. Há quem tenha contado 34 e é bem possível que assim tenha sido, pois é bem sabido por todos que se alguma coisa vier a faltar neste cantinho à beira mar plantado, seguramente não será o betão nem gente de cassetete a garantir que ele chega aonde deve chegar.
Não se preocupem, organizem-se.

“No verde do Vale acendeu-se o lume das laranjas”

João Miguel

O acordar vespertino e o plano inicial ligeiramente abortado, não tolhem a vontade de caminhar.
Faz-se, apenas de outra forma, mas faz-se.
Serpenteando por vales e serranias, o norte torna-se cada vez mais presente, premente. O
primeiro vislumbre do rio antecipa o desaguar de um mar de emoções que marcam os dias
seguintes.
E é grande a vista, se a vida não é medida pela quantidade de vezes que respiramos, mas pelos
momentos que nos tiram a respiração, este é um deles.
Os sorrisos familiares começam a rasgar e alargar o caminho e, com ele, os horizontes do
possível, de um futuro diferente do passado que trouxe este presente.
A imensa generosidade do cenário envolve-nos o coração num abraço suave, tal como as
encostas embalam o rio desde tempos imemoriais.
Ao longe, um rosnar distante e crescente do insaciável progresso apenas se faz sentir, prelúdio
dos tempos que vêm.
À distância, o astro-rei carmesim despede-se, mergulhando paulatinamente no regaço do relevo
e deixando atrás de si uma cornucópia de tonalidades única.
A lua anuncia a chegada do crepúsculo, de um manto de luzes e sons até então escondidos. À
noite, as estrelas descem do céu e vêm boiar no rio.
Recolhidos, a chuva acaricia o aconchego do abrigo, embalando-nos com a sua enleante
melodia para um descanso retemperador, que precipita a chegada da madrugada.
Ao longe, o rosnar persiste. Cruel destino da humanidade, enquanto provida do que nunca usa,
eternamente incapaz de alterar o curso, presa na sua própria fatalidade, carrasco da sua
infelicidade, em cujas grilhetas teima ficar reclusa.
Manhã, um novo começo, um novo fôlego. Enquanto o sol caminha para o seu auge, um passeio
delicioso, pleno de cores, aromas, melodias, encontros.
Hora de partir, mas não de deixar-te. Algo que fica connosco, que permanece, nas águas, nas
árvores, nos sentidos, a ternura de um aceno puro, sábio e genuíno. Algo que trazemos
connosco, para sempre.
4ª feira, 18/03/2015, nada disto subsiste, devorado por um apetite voraz, insano; não é mais do
que uma memória distante de alguns privilegiados. Melancolia, essa felicidade de estar triste.
Dizem que o que as grandes e puras afeições têm de bom é que, depois da felicidade de as
termos sentido, há ainda a felicidade de as recordar. E essa, ninguém no-la pode cimentar ou
tirar.
Naquela semana no Tua, no verde do vale acendeu-se o lume das laranjas.
“Desfruta a terra, mas sem possuí-la. Por falta de iniciativa, os homens estão onde estão,
comprando e vendendo, desperdiçando a vida como escravos”.
Henry David Thoreau

“No verde do Vale acendeu-se o lume das laranjas”
O acordar vespertino e o plano inicial ligeiramente abortado, não tolhem a vontade de caminhar.
Faz-se, apenas de outra forma, mas faz-se.
Serpenteando por vales e serranias, o norte torna-se cada vez mais presente, premente. O
primeiro vislumbre do rio antecipa o desaguar de um mar de emoções que marcam os dias
seguintes.
E é grande a vista, se a vida não é medida pela quantidade de vezes que respiramos, mas pelos
momentos que nos tiram a respiração, este é um deles.
Os sorrisos familiares começam a rasgar e alargar o caminho e, com ele, os horizontes do
possível, de um futuro diferente do passado que trouxe este presente.
A imensa generosidade do cenário envolve-nos o coração num abraço suave, tal como as
encostas embalam o rio desde tempos imemoriais.
Ao longe, um rosnar distante e crescente do insaciável progresso apenas se faz sentir, prelúdio
dos tempos que vêm.
À distância, o astro-rei carmesim despede-se, mergulhando paulatinamente no regaço do relevo
e deixando atrás de si uma cornucópia de tonalidades única.
A lua anuncia a chegada do crepúsculo, de um manto de luzes e sons até então escondidos. À
noite, as estrelas descem do céu e vêm boiar no rio.
Recolhidos, a chuva acaricia o aconchego do abrigo, embalando-nos com a sua enleante
melodia para um descanso retemperador, que precipita a chegada da madrugada.
Ao longe, o rosnar persiste. Cruel destino da humanidade, enquanto provida do que nunca usa,
eternamente incapaz de alterar o curso, presa na sua própria fatalidade, carrasco da sua
infelicidade, em cujas grilhetas teima ficar reclusa.
Manhã, um novo começo, um novo fôlego. Enquanto o sol caminha para o seu auge, um passeio
delicioso, pleno de cores, aromas, melodias, encontros.
Hora de partir, mas não de deixar-te. Algo que fica connosco, que permanece, nas águas, nas
árvores, nos sentidos, a ternura de um aceno puro, sábio e genuíno. Algo que trazemos
connosco, para sempre.
4ª feira, 18/03/2015, nada disto subsiste, devorado por um apetite voraz, insano; não é mais do
que uma memória distante de alguns privilegiados. Melancolia, essa felicidade de estar triste.
Dizem que o que as grandes e puras afeições têm de bom é que, depois da felicidade de as
termos sentido, há ainda a felicidade de as recordar. E essa, ninguém no-la pode cimentar ou
tirar.
Naquela semana no Tua, no verde do vale acendeu-se o lume das laranjas.
“Desfruta a terra, mas sem possuí-la. Por falta de iniciativa, os homens estão onde estão,
comprando e vendendo, desperdiçando a vida como escravos”.
Henry David Thoreau

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s